quarta-feira, 17 de julho de 2013

Differential Mobilities: ou a face escondida da mobilidade

Nos dias 8, 9, 10 e 11 de maio aconteceu na Concordia University o Differential Mobilities. Eu tive a oportunidade de participar informalmente de alguns dos painéis (infelizmente não consegui acesso aos GTs), dos professores Jason Lewis e Skawennati Fragnito, da própria Concordia com Aboriginal Territories in Cyberspace, da professora Giselle Beiguelman, presença brasileira representando a FAU-USP, com Mobile Goes Post-Virtual, e Micha Cárdenas, da University of Southern California, com Local Autonomy Networks - Autonets: Healing is our Response.

O mote do evento era falar sobre tecnologia e comunicação em rede enquanto ferramentas de emancipação e transformação de minorias, espaços urbanos negligenciados, levando em consideração as noções de ubiquidade das redes tecnológicas e da mobilidade inerente a esse fenômeno.
"Mobilities has become an important framework for understanding and analyzing contemporary social, spatial, economic and political practices. Mobilities research is interdisciplinary, focusing on the systematic movement of people, goods and information that “travel” around the world at speeds that are greater than before, creating distinct patterns, flows– and blockages. Mobilities research contributes to the study of these technological, social and cultural developments from a critical perspective. The theme of this year’s conference is “Differential Mobilities: Movement and Mediation in Networked Societies”. The term ‘differential mobilities’ has been deployed to describe dynamics of power within networked societies. When we conceptualize movement, mobility, or flows within spaces and places, we need to account for the systemic differences within infrastructures and terrains that create uneven forms of access. ‘Differential mobilities’, conceptually, highlights how exclusions occur, creating striations of power. It draws attention to differences in how these inequalities are experienced, the strategies for resistance, and the processes of mediation that have been implemented to instigate change.Disciplines represented at the conference may include (but are not exclusive to): Anthropology, Architecture and Design, Civil and Environmental Engineering, Communication, Criminology, Cultural Studies, Geography, Media, Sound and Visual Arts, Politics and International Relations, Public Policy, Sociology, Theatre and Performance Studies, Tourism Research, Transport Research, and Urban Studies."
A primeira palestra que tive a oportunidade de assistir foi ministrada pelos professores Lewis e Fragnito, ambos da Concordia, ambos descendentes de povos nativos (ele dos Mohawk da California e ela das Primeiras Nações do Canadá).

O trabalho deles, entitulado Espaços Aborígenes no Ciberespaço foca as várias atividades de integração e valorização da cultura das Primeiras Nações, especialmente, em matéria de novas tecnologias. Eu fiquei, pra minha sorte, bastante íntimo do professor Lewis e pude conversar com ele e assistí-lo dando aulas e palestra pelo menos quatro vezes. E ele em várias ocasiões me deu a seguinte linha como a principal justificativa para seu trabalho: como podemos pensar na preservação da cultura dos povos aborígenes sem imaginar um futuro para eles? Essa articulação entre passado e futuro, essa conjugação entre stillness e mobility, é o núcleo dos dois trabalhos que eles apresentaram: Time Traveller e SKINS.

Em Time Traveller (que vocês podem dar uma olhada através do link acima) os dois pesquisadores misturam animação por computador (CGI + 3D animation) para criar vídeos que apresentem a cultura das primeiras nações, momentos históricos e lendas, através de uma linguagem tecnológica e profundamente utópica que arrisca-se a imaginar um futuro com a presença desses povos não como relíquias de museu e reservas fechadas e esquecidas pelo mundo, mas como partícipes de uma civilização nova, ocidental e aborígine. Desde o site até a própria experiência diegética dos episódios da série é criada a ideia de que aquele é um dispositivo real e aqueles momentos reais da história passada, presente e futura não apenas desses povos nativos do continente norte-americano, mas de uma hibridação cultural auxiliada pela tecnologia.

SKINS se trata de uma oficina de game production/game design - ou, nas palavras de Fragnito, workshops on aboriginal storytelling in digital media. Indo para sua quinta edição, essas oficinas buscam aproximar (especialmente os jovens) que vivem nas muitas reservas das Primeiras Nações da arte e técnica de produção de jogos digitais. É uma das experiências mais emocionantes às quais fui exposto durante minha estada aqui em Montréal: desde a história do jogo, até o cenário e a jogabilidade são decididos através de uma exposição daquela cultura, aproximando a tradição ancestral da programação de jogos. A experiência é ainda mais fascinante e enriquecedora porque os programadores são, como muito do pessoal que trabalha com produção de jogos (especialmente no TAG Lab, do qual já falei e ainda falarei num próximo post) são de incontáveis backgrounds culturais, raciais e nacionais: há uma verdadeira experiência de troca não apenas técnica, mas também cultural.

A segunda palestra que consegui assistir foi a da professora Giselle Beiguelman.
"We have been “cyborgized” by our cell phones, which are a kind of permanent connection point that expand our bodies and locate us in a temporality of an eternal now. Screens of different sizes, with constantly updating features, reshape notions of domestic space and privacy. Applications of Augmented Reality insert layers of information in the urban environment and redefine public space. The materials of the objects around us are the result of chemical equations and people remodel themselves in surgical centers that turn us into compounds of botox, silicone, flesh and blood. Our food comes from laboratories and scientists promise us a world populated by clones and new artificial beings. We live-mediated by social networks such as Twitter and Facebook, and the Internet is one of the privileged stages of political mobilization. Without doubt, we can say that the virtual age ended in the first decade of this century. Reality swallows everything and then positions us in the center of interconnected networks that are accessed, literally, through the palm of our hand. In this presentation I will discuss how artists and designers are responding to this emerging context, exploring new interface models and formulating critical points of view to control strategies and overwhelming mass consumption"
Pra quem não conhece, ela é professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, com muitas obras e presenças em eventos e estuda os aspectos urbanísticos (principalmente) das novas tecnologias. Ela está no twitter e facebook (e inclusive é amiga de figuras muito mais conhecidas nossas, como Adriana Amaral, Erick Felinto, Suely Fragoso e Sandra Montardo. Na sua fala ela começou falando sobre o anacronismo da oposição entre real e virtual e sobre a emergência de culturas em rede, de uma intersubjetividade nodular. Ela pesquisa muita arte e urbanismo e apresentou diversos eixos nos quais está envolvida, começando pelas experiências iniciais com o GoogleGlass e outros dispositivos de realidade aumentada, passando pela "Cozinha Viva" de Michael Harboun (que vocês podem ver um pouco no vídeo abaixo).


Ela falou de muitos outros projetos com os quais está envolvida, como o TaT, Next Nature e Suite 4. Vocês podem encontrar mais sobre esses projetos pesquisando sobre ela. Ela encerrou sua apresentação falando sobre sua instalação artística, o U R Not Here (que vocês podem dar uma olhada no video abaixo). Interessantemente essa ideia de construção de cidades na qual esse projeto está amparado foi uma ideia bastante recorrente na minha estada aqui em Montréal (falarei mais sobre isso no próximo post). A palestra da professora foi uma das mais densas do evento e foi realmente fantástica.



URnotHere - interactive installation by Giselle Beiguelman & Fernando Velázquez from Fernando Velazquez on Vimeo.

A terceira fala que tive a chance de assistir foi da pesquisadora norte-americana Micha Cárdenas que falou sobre Autonets, um conceito que pretende englobar a materialidade das redes tecnológicas sendo criadas e gerenciadas por minorias na América Latina, Central e do Norte.
"My work on the Transborder Immigrant Tool, a project to turn used cell phones into devices that provide physical and poetic sustenance to people crossing the US/Mexico border, led me to Local Autonomy Networks (Autonets), which is being developed in collaboration with community-based organizations in Los Angeles, Detroit and Bogotá, Colombia. Autonets has the goal of building networks of safety for queer and trans people of color using a range of technologies including wearable electronics and non-digital embodied communication methods. Digital technology is the basis for an epistemology often referred to as “the digital” which is imbricated with western logics. To work towards post-digital networks is to participate in a decolonization of technology and to imagine possibilities that both precede and follow the digital. My intervention is to make a trans of color critique, taking inspiration from queer of color critique, that rejects the binary logic of the digital and looks to oppressed communities for alternative logics"
Cárdenas é transexual e utiliza suas experiências de vida como influência direta na criação de experiências artísticas digitais e como centro de seu foco de pesquisa. Ela apresentou diversos projetos dos quais vem participando, a começar por Transborder Immigrant Tool. Nesse seu mais recente projeto ela e uma equipe de técnicas ajudaram a repropositar telefones celulares ultrapassados com GPS autônomo (no Brasil esses aparelhos não foram tão populares: de várias marcas, eles possuem o que se chama de GPS direto, como o que alguns carros ainda utilizam, através de conexão telefônica GSM simples) para servirem de ferramenta de auxílio para imigrantes ilegais que cruzam a região desertificada do norte do México para entrar ilegalmente nos EUA. Esses celulares, então, ligam-se a uma rede autônoma que orienta o imigrante a encontrar caminhos seguros de predadores, acidentes geográficos e unidades de armazenamento de água. Essas "intervenções éticas", como Cárdenas chama, são uma expressão da "ciência dos oprimidos" que busca se libertar da violência enquanto forma de controle do movimento. 

Outro projeto apresentado por ela, baseada na muito interessante ideia de um "futuro telepático pós-digital", busca proteger minorias sexuais e trabalhadores sexuais através de hoodies, sapatos de salto e outras vestimentas "ciborguizadas": esses objetos cotidianos são apropriados e transformados através de tecnologias apropriadas de RFID e celular para gerarem redes de auxílio e informação entre essas minorias. O hoodie, por exemplo, serve para que as próprias pessoas partícipes dessas minorias possam fazer uma vigilância sobre si mesmas, criando uma rede de auxílio e de alerta em caso de violência, etc. Os sapatos de salto usados por trabalhadoras sexuais servem de botão de pânico, podendo avisar colegas de trabalho nas ruas ou até mesmo a polícia, sendo equipados com GPS. 

Ela finalizou sua apresentação falando sobre os trabalhos do "We Already Know and We Don't Already Know", um projeto que visa dar vozes as minorias sexuais e raciais nas periferias de grandes centros urbanos das Américas, como Los Angeles e São Paulo, através de ações artísticas nas ruas .

Esse evento foi muito legal e uma das oportunidades mais interessantes que eu tive pra vislumbrar o cenário teórico e acadêmico da área para a qual nos dedicamos aqui no grupo. Foi muito interessante ouvir pessoas de vários lugares do mundo engatadas em ótimas discussões sobre mobilidade, redes, etc., e foi bem magnífico ver as apropriações de teóricos tão díspares de muitas das nossas bases teóricas (de Latour a Heidegger, de McLuhan a Derrida, de Deleuze a Jorge Luis Borges).

Como nota de conclusão, queria dizer que existe a possibilidade desse evento vir para o Brasil (mais especificamente para o Rio ou SP) em 2014 ou 2015. Ele é um evento internacional que já aconteceu em diversas cidades do mundo. Vamos torcer, né?

E quem quiser ver mais sobre esse evento maravilhoso e sobre o Mobilities.ca, que ajudou a organizar e documentou várias coisas durante o evento, pode olhar a página deles no Vimeo (aqui) ou o site deles (aqui) com muitas informações sobre as palestras (inclusive os abstracts completos de todas as palestras).

No próximo post...

Pratices of World Building - Fans, Industries, Media Fields
Outra conferência internacional que tive a chance de participar (dessa vez, como ouvinte, de todos os dias e todas as palestras) contando com presenças como Mark J.P. Wolf,  Jean-Marque Leveratto (estudante do Latour), Jim Collins, Matt Hills (autor importantíssimo sobre fan-culture, prefaciado por Jenkins) e Alexander Zahlten.

Essa pesquisa e essa visita à todas as instalações da Concordia University são patrocinadas pelo programa PDSE de Doutorado-Sanduíche da Capes/BR (processo 1899-01-2) e possibilitadas pela orientação do Prof. Dr. Ollivier Dyens, vice-reitor de Aprendizado e Ensino e professor titular do Departamento de Estudos de Francês.

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